Carlos Chagas – O esquecido pelo Nobel e a saúde pública no Brasil

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Carlos Chagas

Essa semana na internet o assunto mais comentado têm sido o clipe oração d`”A banda mais bonita da cidade”. Muita discussão sobre música, plano sequência, paródias diversas, etc. Eu não faço a menor ideia do que seria um “plano sequência” e desde os primeiros anos da faculdade sei que o “coração não é tão simples como se pensa”, o que deixa este blog de fora do assunto mais comentado da semana. Porém, outro assunto que está sendo bastante discutido, logicamente com menor repercussão por não se tratar de entretenimento, é a série de artigos publicados pela revista The Lancet sobre o Brasil.

Foram publicados diversos artigos que abordam a saúde pública brasileira, com temas como nosso sistema único de saúde, mortalidade materna e infantil, violência e outros. É um sinal bastante claro de que o mundo começa a olhar interessado no nosso modelo de saúde, apesar de todos os problemas (que são muitos). Para quem tiver interesse, os artigos têm acesso livre para computadores localizados no Brasil até o fim deste mês.

Dentre os artigos publicados vou comentar de forma resumida aquele que traz um dos maiores nomes da ciência brasileira, Carlos Chagas. Graduado em medicina pela faculdade de medicina do Rio de Janeiro no ano de 1903, mesmo ano de formação de Oswaldo Cruz, Chagas iniciou sua carreira atuando na luta contra a febre amarela na cidade do Rio de Janeiro. Posteriormente se dedicou ao combate da malária nas regiões afastadas dos grandes centros, como nas áreas rurais de Minas Gerais. Nesta época, Chagas começou a estudar alguns insetos hematófagos que viviam nas frestas das casas de pau-a-pique, em especial aquele que era conhecido popularmente como barbeiro. E assim, acabou identificando uma nova espécie de tripanossomo, que batizou de Trypanosoma cruzi em homenagem ao seu amigo Oswaldo Cruz. Em 1909, após identificar este parasita no sangue de uma menina, Chagas anunciou a descoberta de uma nova doença transmitida pelo barbeiro, que acabou levando o seu nome “Doença de Chagas”. Este é um dos poucos casos na história da ciência de alguém que desvendou toda uma doença, desde as formas de transmissão à sua fisiopatologia. Foi uma vida inteira dedica ao estudo da doença de chagas, o que lhe rendeu duas indicações para o prêmio Nobel, em 1913 e 1921.

A importância do trabalho de Chagas se deu não somente pela descoberta de uma nova doença, mas pela constatação dos determinantes sociais relacionados a ela. Colocou em evidência o abandono do interior brasileiro, para além da capital federal, caracterizado pela pobreza e doenças endêmicas como chagas, malária e ancilostomose. Foi o início do movimento sanitarista brasileiro, encabeçado por Chagas, que eventualmente levou a reorganização dos serviços de saúde no Brasil.

Assim, Chagas e outros contemporâneos iniciaram uma nova forma de pensamento para a saúde pública. Diferentemente do senso comum de sua época que viam no atendimento às populações rurais e mais pobres como um trabalho “missionário” e não um direito inerente à cidadania. As ideias de Chagas ganharam forma durante todo o século XX e teve suas grandes conquistas após o movimento de reforma sanitária e a introdução na constituição de 1988 da saúde como um direito de todos e um dever do Estado, que culminaram com a criação do Sistema Único de Saúde.

E é esta forma de enxergar a saúde pública que tem ganhado destaque internacional nos dias de hoje. A saúde não pode estar submissa aos interesses do mercado, reservada àqueles que por ela podem pagar e servida aos pobres na forma de “esmola”. Vivemos um momento em que os médicos estão se unindo por melhores condições de trabalho, principalmente no que se diz respeito às relações com operadoras de planos de saúde. Uma luta deveras justa, mas que infelizmente não se encontra similar para o serviço público. Ontem, durante atendimento em uma Unidade Básica de Saúde em São Carlos precisei dividir o bloco de receituário com outros médicos por não haver outro na unidade, otoscópio também é único na unidade e tive que mudar o tratamento para minha paciente com hipertensão refratária pela falta de medicamento na rede. Nosso Sistema Único de Saúde é exemplo internacional de uma boa forma de organização dos serviços de saúde, mas parece que às vezes o legado de Chagas e tantos outros é esquecido e continuamos reproduzindo o mesmo pensamento elitista daqueles “diferenciados” do início do século XX.

ResearchBlogging.org

Kropf, S. (2011). Carlos Chagas: science, health, and national debate in Brazil The Lancet, 377 (9779), 1740-1741 DOI: 10.1016/S0140-6736(11)60721-6

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  • Mariana
    Ótimo texto, Rafa!

    Cada vez melhor o teu blog!

    • Rafael Pivovar
      Valeu!!
      =]
  • http://notenho Julia bhugtem
    ta otimo msm
  • Renata
    Quanto a afirmação de Chagas ter se formado no mesmo ano de Oswaldo Cruz, nesta frase:

    “Graduado em medicina pela faculdade de medicina do Rio de Janeiro no ano de 1903, mesmo ano de formação de Oswaldo Cruz, Chagas iniciou sua carreira atuando na luta contra a febre amarela na cidade do Rio de Janeiro.”

    Oswaldo Cruz se doutorou também na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, mas em 1892.

    Depois disso viajou pela Europa, fez curso no Instituto Pasteur, dirigiu o Instituto soroterápico e em 1903 já era o diretor da Diretoria Geral de Saúde Pública (dizem que seria um equivalente a ministro da saúde hoje me dia).

    E, claro, Oswaldo foi figura importante na trajetória de Chagas.

  • Luciana
    Carlos Chagas foi o primeiro cientista da história da medicina a descrever uma doença por completo: transmissão, fisiopatologia, quadro clínico, vetores e agente etiológico.
    Meu orientador aqui na FAMERP publicou um editorial no International Journal of Cardiology sobre dar a Chagas o prêmio Nobel póstumo:

    BESTETTI, R. B. ; MARTINS, C. A. ; Cardinalli-Neto, A . Justice where justice is due: A posthumous Nobel Prize to Carlos Chagas (1879-1934), the discoverer of American Trypanosomiasis (Chagas’ disease).. International Journal of Cardiology, v. 134, p. 9-16, 2009.

    Parabéns pelo blog :)

    • Rafael Pivovar
      Fico feliz que tenha gostado do blog! E quanto ao Chagas quanto mais leio sobre ele mais impressionado fico! Já guardei o link do editorial que seu orientador escreveu, lerei assim que puder!!